Sobre sua responsabilidade em contar sua história na pecuária

Por em 8 de julho de 2015

Olá, tudo bem?

Quando eu era pequeno, ajudava os funcionários da fazenda a abater porcos. Eu estava por perto, ajudando no que fosse possível para um menino de poucos anos de idade. Eu gostava disso, eu me interessava. Eu ficava olhando, prestando atenção. E sabia que dali viria uma carne deliciosa. Abatíamos porcos para fazer carne na lata. Na época, tínhamos apenas uma geladeira a gás na fazenda, e não existia freezer. Eu também via e acompanhava a empregada matar frangos. Tudo isso era normal. Era parte da vida, parte do ciclo da vida.

E eu aprendi com meu pai que aquilo era sagrado e que precisava ter respeito pelo processo, pelo momento, pelos animais. Aprendi isso quando levei uma bronca ao fazer uma brincadeira de criança ao acompanhar o abate de um porco.

Tudo isso hoje é muito menos comum. Muita gente estranha que é preciso matar um bicho para se comer carne. A grande maioria das pessoas nunca viu abater um animal, e nem quer ver. E tem restrições ou pre-julgamentos a quem já viu, ou acha isso normal…

Há algum tempo, o famoso chef brasileiro Alex Atala levantou uma grande polêmica ao matar uma galinha num dos festivais mais famosos de alta gastronomia. Quando viu o “barulhão” que as pessoas fizeram com algo tão simples e natural, respondeu: “provavelmente, sua avó matava galinhas”… Com o passar do tempo, com o crescimento das cidades, com o êxodo rural, as pessoas se distanciaram da produção de alimentos, se distanciaram de suas origens e se distanciaram de como as coisas são produzidas.

Não vejo nada de errado em abater um animal para consumo. Um abate com respeito, técnica e cuidado. Como disse o pai de Simba no filme Rei Leão: “é o ciclo da vida”. Como eu tenho filhos pequenos, você imagina quantas vezes eu já assisti esse filme…

Quando levei meus filhos na fazenda do meu pai, fiz questão que eles vissem o processo de desossar a carcaça de uma novilha. Tratei como uma coisa normal e eles entenderam.

Hoje publicamos um artigo traduzido dos EUA, que mostra uma nova tendência de açougues que buscam mais do que vender carne de alta qualidade. Buscam vender alimentos com origem conhecida. Visam conectar os produtores de gado com os consumidores de carne. Querem contar sua história, mostrar como trabalham, explicar a origem da carne que você come. Muita gente hoje não sabe mais que bacon vem do porco…

Esse tema ainda está ligado a um nicho de mercado, de carne premium, com altos preços. Além de considerar esse mercado crescente e que pode ser um grande gerador de lucros, eu vejo algo mais amplo nisso tudo.

Eu vejo uma oportunidade, uma necessidade e uma obrigação de cada um de nós contar melhor nossa história de produção de carne. Da genética, da vaca, do bezerro, do garrote, do abate, do açougue. Do vaqueiro ao açougueiro. Quem são os humanos que fazem a pecuária.

Isso é essencial para conectar nosso produto com nosso cliente. E também nos proteger de alguns chatos barulhentos que teimam em colocar defeito no nosso produto, no nosso sistema de produção, no nosso estilo de vida. Há um trabalho a ser feito.

Escrevo isso num período em que comi uma das melhores carnes da minha vida, de Nelore criado a pasto, ao mesmo tempo, depois de ter visto nos EUA as tendências de valorização de carne de animais criados a pasto, e também com a notícia de que a Imbev (maior empresa de cervejas do mundo) comprou a pequena Colorado, cervejaria artesanal de Ribeirão Preto, SP.

Te convido a ler, participar e refletir sobre esse mercado, sobre sua responsabilidade em contar sua história, e sobre as oportunidades que temos daqui em diante.

Anatomia do açougue moderno

Muito obrigado pela sua participação. Um grande abraço, Miguel

PS: Marque na sua agenda: BeefSummit Brasil 2015, dias 20, 21 e 22 de novembro em Ribeirão Preto, SP. Três dias de puro conteúdo, relacionamento e inspiração. O evento de quem faz hoje a pecuária do futuro. E esse ano vamos ter muitas novidades, surpresas e inovações… :-)

Miguel Cavalcanti
BeefPoint: Para quem faz hoje a pecuária do futuro. E para quem quer fazer.
AgroTalento: Desenvolvimento pessoal e profissional para os novos líderes da pecuária.

12 Comments

  1. José da Rocha Cavalcanti

    08/07/2015 at 19:30

    Um animal criado e selecionado para produzir carne, cumpre sua “nobre missão” quando faz parte de uma refeição no prato do consumidor.

    • Beto Guimaraes

      11/07/2015 at 19:01

      Estou morando a 6 meses na Califórnia, uma experiência familiar e de me profissionalizar a tocar os negócios de longe e aprender inglês . Já que não sei o português.
      Fiquei espantado com a falta de sabor da carne daqui, até a cor é diferente mais clara. É como comer um frango caipira e um de granja. Uma banana na fazenda e uma aqui.
      Da próxima vez que vierem aqui não deixem de reparar no supermercado e experimentar, a carne, a banana. Façam um churrasco só com sal, sem pimenta do reino etc. Voce vai perceber que o gosto do porco, do frango, e do boi tem muita pouca diferença. Todos têm gosto de ração .
      Assim como nessa época ai – período de seca – compramos algumas picanhas com sabor e gosto estranho meio de estragada. Me falaram que isso é caroço de algodão. Alguém poderia me disser se é isso mesmo?
      Em seis meses aprendi muito pouco do inglês, mas Estou muito feliz com a experiência familiar e profissional. E muito feliz com as espectativas do mercado brasileiro e principalmente do nelore, o qual praticamente só existe ai.
      Sinto que muito em breve a carne de Nelore a pasto vai virar uma marca forte para os frigoríficos brasileiro. Só não fizeram isso porque parece que é mais fácil achatar os preços do que usar a cabeça. Nao percebem que continuao matando a galinha dos ovos de ouro. Também de quem sempre ganhou dinheiro roubando no peso e em sonegação, não se pode esperar muita coisa.
      José da Rocha parabéns pelo seu filho.
      Miguel muito obrigado por tudo o que tem feito pela pecuária e para as pessoas, nós pecuaristas.
      Confinado aqui somente com a minha família pude perceber ainda mais, percebi o quanto nossos comportamentos sao absorvidos pelos filhos, tanto os bons quanto os ruins.
      Está sendo uma grande oportunidade para evoluirmos. Agora senti realmente que o maior patrimônio que posso deixar para meus filhos é prepará-los para o desenvolvimento pessoal na sua essência .
      Temos sim parte nos erros e acertos dos nossos filhos e funcionários .
      Abraço .
      Beto Nelore Laçada.

  2. Miguel Valeriano da Cruz Moraes

    09/07/2015 at 11:26

    Meu pai tinha açougue no interior de um município no RS, e eu sempre ajudava no abate dos animais. Os tempos mudaram e hoje as crianças não vem o abate de animais, por isso o abate causa um impacto tão grande. Estamos acostumados a ver morte no trânsito, em acidente de trabalho.

  3. verley loyola

    09/07/2015 at 12:26

    quem vive este causo contado por voce miguel recorda o passado dos meus pais e avos. mais para as criancas de hoje o leite sai da caixinha. meu amigo, uma coisa extremamente importante e saber a origem de tudo neste mundo, do boi ate o bife.

  4. Heidy Milan

    09/07/2015 at 12:30

    Nós da PariPassu temos trabalhado para contar a história daqueles que querem fazer isto. Um grande desafio… Mas acreditamos muito neste caminho! Valorizar a origem, produto e processo diferencia e posiciona aqueles que entendem esta responsabilidade… E passo a passo a pecuária se fortalece!
    Abraços
    Heidy Milan
    Gerente de Contas
    Proteína Animal Brasil

  5. Cleber Pedroso

    09/07/2015 at 16:22

    diante deste texto lido ontem com muita atenção, hoje me peguei discutindo o assunto com um amigo com muito mais experiência, Eu 38 anos e ele com seus 70 anos, como sempre morei em uma pequena cidade do interior de MS, Brasilândia, quando mais jovem íamos ao açougue e era facial e comum o açougueiro nos dizer coisa do tipo …. essa novilha foi criada pelo fulano de tal … e todos os sábados acompanhava um amigo dono de supermercado até sua propriedade rural onde era abatido animais para seu açougue, o mais comum era o fogo acesso com um carne retirada naquele momento e saboreada …. PODEMOS DIZER SEM MEDO DE ERRAR, O TEMPO BOOOMMM

  6. Marcelo Scatolin Queiroz

    09/07/2015 at 21:25

    Eu, após crescer indo para a fazenda em toda oportunidade parti para o campo da engenharia mecatronica. Apesar de áreas aparentemente opostas na época (hoje a convergência é cada vez mais visível), fiquei surpreso de como ao conversar com os colegas eu via que a minha vivência na fazenda ajudava na questão prática da engenharia, enquanto eles eram puramente academicos. Nosso conhecimento empírico adquirido na fazenda só ajuda na hora de encarar os problemas práticos do dia a dia, talvez por que na fazenda temos que nos virar pra resolver problemas na hora, com os recursos disponíveis. Pra mim essa parte da vida na fazenda não tem preço.

  7. Vasco Varanda Picchi

    10/07/2015 at 09:57

    As iniciativas nesse sentido de dar visibilidade ao produtor no Brasil ainda estão restritas a programas de carnes diferenciadas do Varejo, ou timidamente na carne de associações de produtores. Ainda assim, a resposta do consumidor é bem interessante. Só na linha das carnes certificadas Rainforest e Garantia de Origem do Carrefour, temos de 12/2010 pra cá uma média de 50.000 consultas / ano, com crescimento médio de 30% ao ano (tão rápido quanto o número de consumidores que passaram a ter smatphones nesse período) desses consumidores que consultaram, 3.700 deixaram um feedback de qualidade.
    Alguns dados do nosso sistema de monitoramento dos acessos:
    O perfil desse consumidor foi mudando ao longo do tempo. Antes a principal concentração estava entre 25 e 35 anos, hoje tem um grupo forte entre 20 e 35 e outro novo grupo acima de 60.
    Outro dado interessante é que 68% são homens (talvez justificado por serem linhas de cortes para churrasco) e o maior volume captado é de pessoas das classes B e C.

    • Aleri João Panazzolo

      11/07/2015 at 19:20

      Vasco,
      Fez boa lembrança, de uma iniciativa de um hipermercado onde as pessoas encontram seu alimento.
      A carne bovina é o principal dos alimentos, é a mais desejada por quem a consome.
      Atualmente é a Carne Bovina que tem a maior possibilidade de ser livre de contaminantes químicos e orgânicos, “CARNE LIMPA”
      Pelo processo de produção natural, com vegetais de Alta Qualidade, Instalações adequadas, Alto grau de tecnologia de Controles, Bem Estar Animal e Muito Bom Estar Pessoal.
      Para todos que participam da cadeia produtiva da Pecuária de Corte.
      Do Pasto ao Prato.
      Um ideal que pode ser atingido.
      Motivar o encontro do
      CONSUMIDOR e o PRODUTOR de maneira formal.
      Um evento diário.
      Identificando a Origem da Carne pelos dados formais de Controle legal, Nota Fiscal de Produtor e Guia de Transporte Animal GTÁ, emitida pela Inspetoria Veterinaria do Município de Origem.
      Passa pelo Frigorifico e Fica disposta no Mercado, no Balcão para quem quiser saber a origem.
      O Mercado estará contribuindo muito nesse processo de valorização da vida, da saúde e da sustentabilidade econômica da cadeia da carne.

      Att

      Aleri João Panazzolo
      Engenheiro Agrícola
      Especialista em Produção e Comercialização de Bovinos de Corte com Tecnologia para Alta Qualidade da CARNE e COURO.

  8. Rodrigo Albuquerque

    11/07/2015 at 11:31

    Recentemente a UNESCO aprovou como patrimônio mundial uma histórica planta frigorífica do Uruguai, na cidade de Fray Bentos, veja o link: http://www.elobservador.com.uy/el-anglo-es-patrimonio-mundial-n657770. E com esta notícia nos enviada pelo Prof. Pedro de Felício, fica a sugestão: porque não incluir na UNESCO ou mesmo no IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) uma de nossas plantas, como a do Anglo da cidade de Barretos, atualmente de propriedade do JBS, na lista de nossos patrimônios? E digo mais, porque não incluir o nosso churrasco no “Livro dos Saberes”, o qual registra os Bens Culturais Imateriais do nosso País, no mesmo IPHAN? As baianas do acarajé e o modo artesanal de se produzir o Queijo de Minas nas regiões da Canastra e Alto Paranaíba-MG já foram agraciados. Como diz o Miguel: temos que contar mais a nossa história. Como o modo gaúcho de fazer churrasco pode não ser considerado um Bem Cultural Imaterial de nosso País, p.ex.?

  9. Aleri João Panazzolo

    11/07/2015 at 19:51

    Miguel.
    Vc é um cara Mto especial por nós possibilitar tudo isso.

    O encontro de todos da Cadeia da Pecuária de Corte no Brasil inteiro.

    Vou contar minha simples.história.
    Filho de pequeno produtor rural, nasci em 1964 no querido município de Carazinho RS,
    Em 1970,
    Com vontade e necessidade de sobreviver mudou-se para outro Mto querido município de São Miguel do Oeste SC.
    Sempre trabalhando no campo com meus pais.
    Sei que sou da última geração da minha família que trabalhou manualmente no campo.
    Meus.filhos não vão ter a oportunidade de fazer o que eu fiz.
    Eles vão conhecer o lugar quando passeiam.
    Depois de completar estudo secundário, vim para São Leopoldo RS.
    Cursei com muita vontade Engenharia Agrícola na Ulbra em Canoas RS.
    Formei em Ago/1993.
    Durante a Faculdade trabalhei muitos anos numa linda churrascaria, servindo carne bovina.
    Desde lá dediquei todo meu tempo em estudo e trabalho voltado para a produção rural.
    Especialmente a Pecuária de Corte.
    Atualmente
    Atuo na Produção e Comercialização de Carne Bovina, com tecnologia para Alta Qualidade de CARNE e COURO nos Principais estabelecimentoS do estado.
    Investi numa excelente casa de Carnes, que me permitiu conhecer de forma muito sólida a equação do valor da carne do.produtor ao consumidor.
    AJPanazzolo Serviços Agropecuários Lt
    Engenharia na Pecuária de Corte.

  10. ADALBERTO CARVALHO

    17/07/2015 at 22:16

    Como sempre;
    Miguel
    Nos faz refletir da nossa infância e com estamos criando nosso filhos.
    Que cada dia se distancia das nossa propriedades e do meio de vida que nos os sustentamos.
    No meio de tanta tecnologia,não me surpreendera se alguns deles pense que nossos alimentos venha do computador, de jogos virtuais.
    Não sou contra tecnologia e uso bastante ,mas gostaria que nosso filhos tivesse a infância que tivemos.
    um abraço e continue com sua publicações inspirados

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