Um sistema genuinamente brasileiro de produção de carne de alta qualidade?

Por em 3 de julho de 2015

Olá, tudo bem?

Essa semana foi interessante. Até terça-feira estava em San Francisco, participando da reunião do grupo mastermind que participo nos EUA. O estado da California é o mais avançado nos EUA em relação a tendências de consumo, saúde e vida saudável. E eu pude ver por lá, como a tendência de alimentos naturais cresce a cada dia. E com carne bovina não é diferente.

No país do confinamento, a tendência mais forte hoje é por carne natural, carne sem uso de hormônios, carne orgânica e carne de animais criados a pasto.

Cheguei aqui na quarta ao meio-dia, vim a Piracicaba quase que para trocar as malas, e já segui em direção a Três Lagoas, MS, com meus dois filhos, para participarmos do dia de campo das fazendas São Mateus e Santa Ofélia.

Eu fiz um bate-volta de 1.140 km, para conhecer de perto os avanços do trabalho do Sergio Arantes, Mateus Arantes e respectivas famílias. Eu já tinha ido lá, e voltei mais impressionado.

Minha sensação é que se começa a desenhar o verdadeiro sistema de produção brasileiro de carne de alta qualidade. A combinação de ingredientes para essa carne maravilhosa que degustamos no dia de campo é única no mundo:

– Nelore
– Integração Lavoura Pecuária
– Pastos irrigados sob pivo
– Seleção genética e uso de ultrassom

Juntando esses quatro ingredientes, foi possível produzir uma carne de Nelore extremamente macia, extremamente saborosa, e inclusive com marmoreio.

Mas como isso é possível, você deve estar me perguntando…

ILP, pastos irrigados e é claro, um ótimo manejo de pastos é o que garante uma nutrição de alto nível, a pasto. Com isso o animal cresce rápido, ganha peso rápido, acumula gordura e está pronto para o abate em menos tempo. Esse é ingrediente essencial.

A raça Nelore que ninguém acreditava ser possível produzir carne com marmoreio e com alta maciez, provou novamente suas possibilidades. Posso te garantir que a carne de ontem está entre as melhores que já comi na minha vida, pois juntou de forma incrível, elevada maciez, sabor de gado a pasto, e gordura/marmoreio na medida certa.

Ficou provado que nenhuma raça pode tomar para si a exclusividade da qualidade de carne, ainda mais com a aceleração da seleção quando se usa ultrassom e muito em breve marcadores genéticos.

É claro que o assador também conta, e é preciso louvar o excelente trabalho do Arildo Flores, um dos profissionais da carne mais reconhecidos e admirados no Brasil. Trabalho impecável, e com paixão pelo que faz.

Nelore a pasto, com maciez, sabor e marmoreio faz bonito em qualquer restaurante de alto nível de carne do mundo inteiro.

E essa combinação: Nelore + ILP + seleção genética + manejo pode ser o caminho para se produzir uma carne com nosso jeito, nossa cara, nossa história, e que de um show em qualquer grelha do mundo…

Sistema de produção único, e com custos e eficiência de produção únicos. Imagina em momentos de alto valor de grãos, como esse sistema se torna mais competitivo do que qualquer outra carne de alta qualidade no mundo… E com isso, podemos realmente mudar de patamar, e concorrer com quem vende qualidade, e não com quem vende preço.

Eu acredito que podemos estar caminhando mesmo para um sistema genuinamente brasileiro de produção de carne de alta qualidade, alinhado com as tendências mais modernas de consumo e demanda. Vamos poder parar de pensar numa dicotomia, de carne de Nelore a pasto OU carne de qualidade, para uma sinergia Nelore a pasto COM qualidade.

Numa mesma semana, comendo carne em San Francisco nos EUA, e também em Três Lagoas, MS, não posso deixar de associar essas duas questões, e ver um grande potencial para o Brasil.

Eu fiquei impressionado, e a quantidade de carne que eu comi não me deixa mentir… Meus filhos também comeram bem… :-)

Outro ponto forte da visita, é o excelente trabalho de gestão de pessoas que Sergio Arantes e família conduzem na fazenda. E me fez lembrar que a tecnologia mais importante da fazenda é o vaqueiro. É a base de tudo, e o que garante o bom uso de qualquer outra tecnologia. Esse é um tema para um dos meus próximos emails.

Muito obrigado pela sua participação aqui no BeefPoint.

Um grande abraço e um ótimo final de semana, Miguel

PS: Não posso deixar de registrar a alegria de encontrar vários amigos e integrantes da primeira turma do AgroTalento no dia de campo de ontem. É bom demais ver esse grupo, que se conhece há pouco mais de 6 meses, ser tão integrado.

Miguel Cavalcanti
BeefPoint: Para quem faz hoje a pecuária do futuro. E para quem quer fazer.
AgroTalento: Desenvolvimento pessoal e profissional para os novos líderes da pecuária.

11 Comments

  1. FERNANDO ARTIGAS

    03/07/2015 at 07:48

    Ainda da tempo de participar do dia de campo em Três Lagoas, MS,no dia de campo das fazendas São Mateus e Santa Ofélia.como fazer qual o endereço .obrigado

  2. Juliane Diniz Magalhães

    03/07/2015 at 12:38

    Olá Miguel, bom dia!
    Gostaria de aproveitar este momento em que você levanta a barra do bovino brasileiro a pasto, boi orgânico, sem hormônios ILP e perguntar o que sentiu do mercado em relação ao uso de antibióticos na nutrição de bovinos, já que recentemente foi registrado o Veterinary Feed Directive, que vai direcionar as ações para a utilização de aditivos utilizados na nutrição animal com ação antimicrobiana para a prescrição veterinária.
    Parabéns pelos 2 meses do Francisco!!!
    Obrigada!
    Abraços.

  3. Rodrigo Teixeira de Sales Gomes

    03/07/2015 at 13:54

    Produzir carne de qualidade à pasto não deveria ser nada além da vocação natural do bovino para produzir proteína de alta qualidade (estamos falando de fatores organolépticos e também da isenção de contaminantes como antibióticos,metais pesados,…)e com a grande vantagem de não rivalizar com consumo de alimentos usados por monogástricos incluindo a espécie humana. Confinamentos, ambientes artificiais, grãos e subprodutos, antibióticos,…e todas as técnicas desenvolvidas acertadamente em países de clima verdadeiramente adverso, trazidas e usadas na maioria das vezes por pessoas e técnicos que não detém a informação/conhecimento por completo ou não sabem como interpretá-la e adaptá-la para a nossa realidade, só demonstra nossa incompetência de produzir carne de ruminantes nos trópicos mesmo considerando nossos regimes pluviométricos, luminosidade e clima em geral excelentes na maior parte do Brasil pecuário em comparação ao resto do mundo. É muito mais barato, inteligente e sustentável produzir com animais adaptados ao ambiente do que adaptar o ambiente ao animal. O Nelore é muito restritivo, devemos falar em zebuínos e seus cruzamentos e não cruzados compostos perdendo heteroze, rusticidade e padronização; claro que isso para quem está no trópico. Rusticidade = produzir mais com menos = mais natural = sustentabilidade
    Existe no Brasil, de longa data, tecnologia de alta viabilidade econômica para atingir índices produtivos muito elevados à pasto.
    O binômio genética e nutrição devem andar juntos, e necessariamente nessa ordem, e, ainda hoje, o que é mais comum na pecuária é ver programas nutricionais avançados sendo usados em animais sem nenhum critério de avaliação do seu potencial genético produtivo. Ora, vamos olhar para o lado e nos espelharmos nos bons exemplos; a quanto tempo se fala em conversão alimentar nos monogástricos? a quanto tempo foi deixada a vaidade humana de lado na seleção desses animais? Pistas, exposições, sufixos,marcas,…devem ser feitos para animais que não são destinados à produção de alimentos, como por exemplo equinos, cães,…; a seleção de bovinos para corte deveria-se levar em conta apenas a produtividade, estamos começando a trilhar esse rumo, mas a adesão ainda é ridiculamente pequena comparado ao universo de criadores do país.
    Mas voltando ao assunto, ILP, irrigação, e outras, são ferramentas muito bem vindas, mas também pode-se atingir atos níveis de produtividade à pasto com o básico: pastagens bem formadas e bem manejadas e boa genética (para ganho de peso à pasto); se abrirmos mão de um dos dois itens a situação fica complicada.

    • Paulo Lemos

      06/07/2015 at 11:56

      Parabens Rodrigo, devemos sim aproveitar melhor essa fantastica fabrica natural dos ruminantes(RUMEM), que transforma alimentos pobres (fibras,resíduos etc) em proteina(carne).
      Abraço!

    • Angelo Boarini

      26/07/2015 at 17:05

      Prezado senhor Rodrigo Teixeira de Sales Gomes,

      Quero por meio deste parabeniza-lo pelo seu comentário.
      Mais do que uma opinião, ao meu ver trata-se de uma aula de produção além de uma exposição racional/filosifica de bom senso.

      Atencioamente,

      Angelo Boarini

  4. vicente matas

    04/07/2015 at 10:48

    Miguel, os animais destas propriedades sao castrados, se sim com que idade.Um bom final de semana.

    • Mateus Arantes

      19/07/2015 at 08:07

      Vicente são fêmeas de 24m Nelore exclusivamente a pasto sem suplementação.

  5. patricia

    05/07/2015 at 20:41

    Boa Noite Miguel
    Acredito que não é necessário gastar com Pivô para se ter um bom boi a campo!!!
    Estamos fazendo um rotacionado ecológico e estamos tendo ótimos resultados..
    Pesquise sobre a FAzenda Ecologica de Jurandir Melado e ele te dará ótimas respostas para se tem um bom ganho de peso sem o gasto excessivo de um pasto irrigado!!!
    Grata pela atençao
    Patricia SAmpaio

  6. José Geraldo da Silva Braga

    24/07/2015 at 07:22

    Sem sombra de dúvida a união LP deixa margem lucrativa ao produtor; todavia, deveria ser achado um jeito de difundí-la mais no Brasil, inclusive para os pequenos produtores.

  7. Rodrigo swain

    02/12/2015 at 22:23

    Miguel vc não para!!
    Parabéns pela disposição e pela matéria do dia de campo.
    Depois da palestra no beefsummit do Mateus Arantes, visualizei um norte para mim e para minha fazenda.
    Tenho um grande percurso para alcançar o nível desejado, preciso urgente dar um up genético no meu rebanho, pois manejo e pasto eu garanto!!

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