Perspectiva para mercado do boi gordo em 2014 e 2015

Por em 11 de setembro de 2014

Bom dia, tudo bem por aí?

Participei de dois eventos nessa quarta-feira em São Paulo, que me ajudaram a entender mais sobre o mercado do boi gordo e suas perspectivas para os próximos meses.

O primeiro foi um almoço com a diretoria do frigorífico Minerva, no restaurante Varanda Grill (uma das melhores carnes de SP), para apresentar números e discutir a situação do mercado atual.

O Minerva gosta de destacar seus diferencias como empresa: foco no negócio carne bovina na América do Sul, simplicidade, disciplina na operação e consistência nas ações e no discurso. Eles querem sempre mostrar números de resultados e destacam a geração de caixa como métrica mais importante. Ou seja, querem que o negócio seja o mais simples e eficiente possível. Isso tem gerado bons frutos e o mercado financeiro tem reconhecido.

Na ocasião, perguntei ao Fernando Galletti, como eles avaliavam a compra de novas plantas frigoríficas. Quais as métricas para uma possível nova região para se atuar e também qual o preço que é possível pagar por uma unidade. Eu queria entender mais como eles analisam seus investimentos e como tomam decisão. Eu admiro o foco da empresa em resultados e também a capacidade do time de análise de mercado deles.

Recentemente a empresa comprou plantas no MT, MG, Paraguai e Uruguai. Num relatório trimestral recente, anunciaram interesse em atuar também na Colômbia. Ou seja, estão se expandindo em diversas regiões dentro e fora do Brasil.

A resposta foi interessante. Para escolher qual região vão investir, avaliam uma série de fatores, como:

  • oferta de gado – quantidade, qualidade e crescimento do rebanho
  • preço histórico do gado na região
  • acesso ao mercado internacional
  • questões trabalhistas
  • questões tributárias
  • outras questões ligadas a regulamentação e regras do negócio
  • atenção que o governo dedica ao setor (ex: no Uruguai a pecuária é uma preocupação muito maior do que aqui)

Na visão deles, hoje é mais interessante comprar empresas fora do Brasil, por todas as questões acima, em especial complexidade trabalhista e tributária. Fernando deu exemplo da compra do frigorífico Carrasco no Uruguai e também do Paraguai. Outro ponto é que no Brasil a competição (capacidade instalada) é maior do que outras regiões.

Citou por exemplo que o Rio Grande do Sul não está nos planos atuais de crescimento, pois há um estímulo local ao comércio de carne com osso, o que diminui a competitividade de empresas maiores. A Argentina não está nos planos da empresa, devido a questões políticas, apesar da grande tradição do país em pecuária.

Em relação a empresas, eles analisam retorno sobre investimento, que precisa ser de no mínimo 15% e também múltiplo da geração de caixa, citando o exemplo do Uruguai quando compraram uma empresa por 4x a geração de caixa.

Interessante notar que no Brasil, o faturamento vem 70% da exportação. E hoje, da receita total da empresa, 25% vem de outros países. Querem que em 2-3 anos, esse patamar chegue a 40%. Vão crescer mais fora do Brasil do que aqui. Outro dado divulgado foi o crescimento da receita anual, cerca de 30% no último ano. O Minerva vem conseguindo usar 70-75% da sua capacidade instalada, valor que consideram benchmark no setor aqui no Brasil.

Fernando Galletti está muito confiante no crescimento das exportações de carne bovina do Brasil. O embargo russo a carne dos EUA, UE e Austrália vão nos ajudar ainda mais no segundo semestre, China importando mais, possibilidade de abertura da Indonésia também ajudam. Mercado comprador em todo o mundo e trabalho do Brasil em abrir novos mercados. A possível/provável valorização do dólar, aumentaria ainda mais a competitividade da carne brasileira.

Eu avalio que o crescimento das exportações pode criar uma diferença de competitividade entre os frigoríficos que exportam e os que não exportam. Mercado interno de lado, e exportação bombando podem criar uma situação em que a capacidade de compra de gado fica bem mais favorável aos que exportam.

O segundo evento foi um lançamento de um produto da MSD, com uma palestra do meu professor Alexandre Mendonça de Barros, que eu considero a melhor palestra de tendências de mercado do agro no Brasil. Eu sempre aprendo muito com o Alexandre e sempre é bom ouvi-lo com atenção.

Alexandre fez uma revisão muito interessante do panorama do mercado com ênfase no boi gordo. Os destaques são:

  • China se tornando cada vez maior importador de alimentos (não se engane com os “apenas” 7% de crescimento anual da economia)
  • EUA reduzindo rebanho, produção e preço recorde do boi gordo (US$ 103/@)
  • Rússia segue comprando muita carne, além da situação momentaneamente excepcional
  • Preço do milho com relação de troca com boi gordo no recorde histórico (em alguns lugares mais de 6 sacas / @ boi)
  • Safra de milho e soja dos EUA deve ser muito grande
  • Safrinha do milho no Brasil esse ano muito grande
  • Exportação de milho do Brasil muito menor esse ano do que em 2013
  • Fundos saíram de suas posições no mercado de milho e soja, o que contribuiu para queda do preço dos grãos
  • Austrália com seca severa, enxugando rebanho, maior abate de fêmeas (ou seja, menor oferta futura de gado/carne)
  • Preço do bezerro no Brasil em patamares recordes e relação de troca se aproximando dos valores mínimos

Ou seja, do lado da demanda mundial por carne e também pelo lado da reposição, a tendência de preços do boi gordo no Brasil é de alta (em relação ao patamar de R$ 130/@ de hoje).

Mas…

Do lado da demanda interna e das carnes concorrentes, há fatores negativos, que dificultam e muito o avanço do preço do boi acima do patamar de R$ 130/@.

  • O preço do dianteiro do boi gordo está no máximo histórico deflacionado (e o mercado parece não aceitar valores acima disso)
  • O preço do traseiro também está nos patamares máximos
  • O preço do frango em relação ao dianteiro está muito mais baixo do que a relação histórica

Ou seja, é difícil esperar um grande aumento de preço do boi gordo. Eu concordo plenamente com a visão do Alexandre e considero que esse é o posicionamento mais saudável para quem quer ganhar dinheiro e trabalhar de forma mais conservadora.

No entanto, há dois fatores que permitem possíveis valorizações do boi gordo, acima do patamar atual, que são:

  • Aumento da cotação do dólar, e aumento da competitividade da carne brasileira no exterior (se o dólar subir, o boi poderia subir em R$ e se manter estável em US$)
  • Aumento do preço das carnes concorrentes (frango e suíno), graças a maior exportação em especial para Rússia, que já está aumentando significativamente os volumes, devido ao embargo político a produtos dos EUA, UE e Austrália.

Enfim, o cenário é muito positivo para o mercado do boi gordo, com uma grande quantidade de fatores alinhados permitindo preços altos do boi gordo e do bezerro e custos baixos de alimentação (confinamento, semi-confinamento e suplementação).

Foi interessante ver algumas pessoas que também estavam na minha palestra de terça da semana passada realizada em evento da Hertape Calier em Porto Alegre, vir comentar comigo como nosss visões estão alinhadas. É muito bom ouvir isso, quando eu admiro muito o trabalho que o Alexandre faz, e a clareza com que ele consegue passar tanta informação.

Um alerta para 2015: os preços muito baixos do milho no Brasil podem ser um grande desestímulo para a safra do ano que vem, o que pode reduzir a produção e elevar preços.

E você, qual sua perspectiva para o mercado do boi gordo em 2014 e 2015?

Muito obrigado. Um abraço, Miguel

4 Comments

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *