Bezerro a R$2.000/cabeça… Descubra o segredo…

Por em 10 de junho de 2015

Olá, tudo bem?

O meu texto sobre preço da reposição, está gerando uma conversa muito interessante. Se não leu, aqui o link: Bezerro a R$2.000/cabeça fecha a conta?.

Analisando as respostas e os comentários (dezenas), me lembrei de duas passagens.

A primeira é uma regra de negociação que eu aprendi do jeito mais caro que existe… Se você está sentado numa mesa, e não consegue descobrir quem é o tonto da mesa, então… O tonto é você… Eu já passei por isso, mais de uma vez… :-)

E com isso, tento sempre olhar com mais cuidado cada análise de negócio.

Eu fico me perguntando: O que o outro lado está vendo, que eu não estou vendo? Qual é meu (possível) ponto cego?

A conta do bezerro a R$ 2.000 fechar ou não depende de poucos fatores, resumidos em:

– custo da recria / engorda
– peso final de abate
– preço final do boi gordo ao abate

Lendo os comentários, comecei a ver que eu tinha um ponto cego na análise prévia que eu estava fazendo…

O preço final do boi gordo ninguém consegue controlar e com pouca variação, é igual para todo mundo. Ou seja, não é aí que a conta vai ficar muito diferente.

A grande diferença possível é o sistema de produção. Se quem está comprando esse bezerro “caro” consegue recriar/engordar com muita eficiência, o negócio pode fechar sim…

Esse bezerro deve pesar umas 9-10 @, e o peso de abate pode ser 22@.

A recria pode ser feita em pastos de alta qualidade em áreas de integração lavoura-pecuária, com custo bastante baixo.

A fase final de engorda pode ser feita com confinamento a pasto, ou semi-confinamento ou ainda confinamento. Se a fazenda também faz agricultura, pode ter sub-produtos a um custo muito competitivo.

E com isso, é possível (não fácil ou certeza) ter um custo final de produção que valha a pena. A conta pode fechar.

Eu comecei a aprender um pouco sobre compra e venda de empresas quando a minha recebeu duas ofertas de compra, e eu não tinha a menor ideia de como avaliar se o negócio era bom ou ruim. Quando você precisa aprender na vida real, você presta mais atenção… Não é legal perceber que você é o tonto da sala… :-)

Uma grande lição que aprendi é que o motivo que você está vendendo uma empresa pode ser completamente diferente do motivo que o comprador está comprando aquela empresa. Entender isso faz toda a diferença.

Entender a cabeça de quem faz o negócio do outro lado é essencial para ter bons resultados.

O mesmo pode estar ocorrendo na negociação de uma fazenda, por exemplo. Você está falando das qualidades das terras, dos pastos, e o comprador está avaliando quão perto é da cidade, quão perto é do aeroporto mais próximo, se a mulher dele vai gostar, se os filhos vão querer vir passar férias ou se um parente vai querer realmente tocar o negócio… Os motivos podem ser completamente opostos, e entender isso te dá muito mais força na negociação…

A mesma coisa é válida ao se analisar o preço máximo de compra ou o preço mínimo de venda.

Dependendo do seu negócio, da sua fazenda, do seu sistema de produção, você pode pagar mais ou menos.

No caso em questão, eu acredito que o ponto mais interessante é que existem negócios muito distintos dentro da pecuária, concorrendo pelo mesmo bezerro, e dispostos a pagar preços diferentes.

Veja as diferenças:

– pecuária a pasto na recria e engorda
– pasto com suplementação na recria e semi-confinamento na engorda
– pasto na recria e confinamento na engorda
– pasto de integração lavoura-pecuária na recria/engorda
– recria com pasto de integração lavoura-pecuária + semi-confinamento na engorda

São sistemas muito diferentes. Com itens de custos muito diferentes. Com riscos muito diferentes. São negócios muito diferentes. E as vezes ainda tratamos como a mesma coisa…

Eu acredito firmemente que a integração lavoura-pecuária vai influenciar mais o sistema de produção pecuária do Brasil do que o confinamento já influenciou.

Quanto mais a agricultura cresce, mais crescem as opções de sub-produtos e baixa o custo da suplementação em vários níveis. E a ILP, mesmo sendo uma atividade complexa de ser implementada, traz resultados muito interessantes.

As fazendas de pecuária mais rentáveis que eu conheço fazem ILP. Porque isso? Provavelmente porque simplesmente produzem muito pasto por um custo (R$ / tonelada de matéria seca) muito competitivo. Com isso conseguem produzir muito, e com custo baixo.

Eu não sei se a conta vai fechar no caso específico de quem comprou aquele bezerro de R$ 2.000.

Mais importante do que isso é avaliar as mudanças da pecuária, e também como isso influencia seu negócio.

– Se você compra bezerros, o que isso pode significar daqui para frente?
– Se você vende bezerros, qual deve ser sua estratégia?

Existem muitas pecuárias dentro da mesma pecuária brasileira. Larga e pequena escala. Muita e pouca tecnologia. Pasto / Confinamento / ILP. Entender essa dinâmica pode te ajudar muito no seu negócio.

Comente aqui e participe desse debate em alto nível.

Se você discordar mim, está tudo bem. Eu quero muito saber sua opinião, sua visão e análise do mercado. Eu aprendi e aprendo demais com você.

Muito obrigado. Abraços, Miguel

16 Comments

  1. Cezar Almeida

    10/06/2015 at 10:02

    Prezado Miguel Cavalcanti,
    Em primeiro lugar, parabenizo-o pela iniciativa, sempre interessante, e pelos importantes conhecimentos que você transmite em seus artigos e seminários, muito uteis aos agropecuaristas.
    Quanto a sua estratégia do “ponto cego” concordo que é uma ferramenta útil nas diversas modalidades de negociação.
    Porem, quanto ao prêço do bezerro e a viabilidade economica deste preço para o recriador e tambem para o terminador, acho que uma nova variavel deve ser respeitada, na atual conjuntura macroeconomica. Trata-de do aumento dos custos de produção de bezerros, tendo em vista a inflação. Esta, como um verdadeiro “dragão” devora os resultados do Criador e pior do que isto, gera insegurança, desconfiança, e descontrole. As consequencias mais imediatas são o retraimento das novas iniciativas e mesmo o desinvestimento. Portanto, quando virmos a sinalização do preço do bezerro a R$ 2.000,00, devemos ter cautela e avaliar com muito cuidado os custos de produção. Por sua vez, o terminador não deve ficar assustado com o custo do bezerro, sua principal materia prima. Sua atenção deve estar no mercado condumidor. Ou seja, haverá demanda para carne produzida a partir de bezerros de R$2.000,00?
    Desejo a todos nós, que o governo fique fora dos negócios, concentrando-se nas suas obrigações constitucionais, e o resto deixe conosco.
    Que Deus nos abençoe
    Cezar Almeida
    Eng Civil
    Pequeno pecuarista

  2. Fernando Heiderich

    10/06/2015 at 10:13

    Em qualquer negocio, independentemente do sistema e portanto da eficiência, matéria prima a custo muito alto ou acaba com a margem ou dá prejuízo.
    Claro que sistemas mais eficientes ajudam mais. No entanto altas eficiências e previsões otimistas (alta conversão e GPD, alto $@ na venda, etc) tb aumentam os riscos significativamente. Só quero trazer a essa boa discussão o ponto básico de que todo negócio precisa de eficiência em custo. A cadeia precisa ser sustentável em todos os seus elos.

    • Miguel da Rocha Cavalcanti

      10/06/2015 at 11:03

      Olá Fernando,
      Muito obrigado pelo comentário.
      Faz todo sentido. Vamos dar destaque a sua participação, amanhã na news.
      Abraços, Miguel

  3. Roberto Mattosinhos

    10/06/2015 at 16:32

    Prezado Miguel,
    Todo e qualquer comentário seu já é um agregado a mais em informação a quem tem interesse em somar e aprender.
    Gostaria de sintetizar um pouco a minha ótica com o que aqui foi exposto:
    * O custo do bezerro comprado a R$ 2.000,00 tem além deste valor o frete até a propriedade e caso aja a comissão de compra ( seja por leilão ou por corretor)
    * O bezerro de R$ 2.000,00 na arroba de R$ 148,oo custou 13,51@, fora os custos mencionados acima.
    * Caso este bezerro pese 10@ (vc pagou 13,51@) e você quer abate-lo com 22@, como sugeriu. Existe um diferencial de 12@ (360Kg) a ser colocado até o seu abate.
    * A pecuária moderna tenta ser eficaz a cada dia, consequentemente imagina-se que o proprietário seja um produtor bem informado e sabe fazer conta. Hoje a precocidade no abate é mito importante ( Qualidade do animal, qualidade da pastagem, manejo e saber potencializar seu ganho de peso correndo o menor risco possível de perder ou empatar o capital investido)
    * Portanto, parabenizo a quem produziu este bezerro e o vendeu neste valor.
    * Parabenizo o comprador que sabe o que significa ter animais de qualidade para terminação.
    * Não completo meu raciocínio no que aqui expus porque sei que a matemática é exata. Desejo sucesso a ambos> Produtor e Comprador

    Abraços e que este sucesso do BeefPoint se perpetue por muito tempo

  4. limao

    10/06/2015 at 22:00

    Boa noite miguelito.
    Meu caro se procurarmos quando discutimos o conceito de margem bruta, acredito que ja deva fazer uns 10 anos.
    A basica resposta da sua pergunta é a margem bruta. Ou seja vende um boi de 17@ por 145, vai dar R$2465.00. Se o boiadeiro pagar R$2000.00 no bezerro……sobrou R$465.00. Ai, véio……por mais eficiente que seja o sistema dele (mesmo ilp, que conheço bem a fundo), num vai fechar bem as contas…..
    Em nível de mundo real…..acho difícil isso dar certo.
    Abração
    Limao

  5. Thiago Abdo

    10/06/2015 at 22:02

    Olá Miguel,

    O que sempre tenho dito é que cada propriedade deve atentar para seus custos efetivos e custos operacionais que farão toda diferença no custo de sua arroba engordada, ou seja pode acontecer de duas propriedades uma vizinha da outra comprar o mesmo bezerro ao mesmo preço e ambas terem lucratividades diferentes, pois não é somente o preço do bezerro e o preço da suplementação que estão envolvidos no custo, temos o custo interno da propriedade (efetivo e operacional) e que fazem toda diferença no sistema de produção como um todo. Acho mais do que nunca a hora de olharmos muito para dentro da propriedade, diminuindo nossos custos fixos, custos variáveis, custos de depreciacões e otimizarmos ao máximo nosso sistema de produção para sermos eficientes. Afinal de contas como saber se o bezerro esta caro ou barato se nem ao menos sabemos nosso custo de produção!!!

  6. Mateus Arantes

    10/06/2015 at 22:25

    Alguém já pensou no bezerro como reserva de valor? Ou ainda como estoque médio? Explico: como o gado está valorizando e tem muita liquidez e o iLP tem pasto de inverno q basicamente é subproduto, o custo de formação já ta na conta (adubo verde – tipo a área vai ficar parada mesmo) então se compro um animal e depois de 3-4 meses vendo esse animal p comprar insumos ou segurar a produção de milho q com certeza vai cair o preço. Talvez não valha a pena. Lembre-se o custo fixo da iLP não é baixo e preciso gerar caixa p pagar. Dai pergunto: o q é melhor vender gado engordando a custo irrisório ou vender milho na bacia das almas? Em 3 meses este animal vai ganhar pelo menos duas @ faz a conta da rentabilidade

  7. Marcos José Silva

    10/06/2015 at 22:34

    Só existe uma ferramenta que ninguém ussa pra saber isso é ti tecnologia da informação o dia que tudo mundo entender o que ela realmente fás todas as contas vão bater…

  8. ELDER ANTONIO NEIVA GONÇALVES

    11/06/2015 at 07:59

    Há uma bolha no boi. Ponto isto explica 90 % desta discussão. Migração capital volátil. Refluxo da bolha imobiliária. Dezenas de milhares pessoas que com recursos e sem opções e como a bola que se mantem quicando é o boi e a recria e a fração menos exigente da cadeia. Com excelente liquidez de entrada e saída. Aliando que e de grande imposição social declarar em bom som ”TENHO MIL BOIS”. Estabeleceu uma convergência forte para esta mercadoria. E em economia quando gente demais corre atrás da mesma bola é de bom senso ter cuidado redobrado com o jogo. Sair da rodada.

    • Luiz Kuhn

      12/06/2015 at 08:42

      Excelente comentário.

  9. Fernando TaMBORLIM fERREIRA

    11/06/2015 at 12:46

    – Acredito que para permanecer na pecuária com boa lucratividade, o fundamental é a melhora na qualidade da pastagem e na genética animal. O grande problema é como fazer isso, pois as possibilidades são muitas e a realidade de cada produtor e de cada fazenda são diferentes.
    O q

  10. Vitor Manoel

    11/06/2015 at 13:28

    Boa tarde Miguel,
    Acredito que num futuro próximo (10 anos) os agricultores de grãos se tornaram os invernistas pelos mesmos motivos que vc citou no artigo, produção de forragem de boa qualidade e em quantidade aliado a um baixo custo, capacidade do uso de subprodutos das lavouras de grãos ou até mesmo os próprios grãos! E o caminho vai ser um só: Quem é pecuarista de cria, vai continuar na cria, O invernista ou vai pra cria ou vira agricultor (integrando o sistema na ILP) e o agricultor que ainda não integra os sistemas de produção vai começar a integrar. Se todos os agricultores resolverem fazer integração vai faltar bezerro no mercado!
    E os pecuaristas de cria que se tecnifiquem para vender o bezerro do futuro com quase 300kg de peso na desmama.

  11. Guilherme Ramm

    11/06/2015 at 14:59

    Muito bons os artigos e os comentários deixados por todos, mas pergunto será que se pode chamar de pecuária moderna um planejamento que tem como fim abater animais com 22@? pergunto isso pois vejo bois com mais de 600 kg como bisontes que tem uma eficiência de conversão já muito prejudicada, posso estar engando mais animais com mais de 500 kg se tornam literalmente um peso para o sistema.

  12. Douglas Ritter

    11/06/2015 at 21:09

    Eu acredito que as várias formas de pecuária citadas precisam ser implementadas em consonância com as possibilidades e caracteristicas da fazenda, aspectos climáticos também devem ser levados em conta. Posso dar exemplo da minha região que de maio a outubro fica suscetível a enchentes e dias de muito frio. Já no verão podemos colocar 3 animais de 21@ por ha que saem num regime só a pasto sem nenhuma intervenção de suplementação para ajudar na engorda. Penso que é preciso pegar o jeito da propriedade, é preciso observar tudo isso para se chegar a uma conclusão de qual a melhor escolha para as várias formas de pecuária que citaste.

  13. Paulo H. Zillo

    12/06/2015 at 10:11

    pagar bezerros a 2.000,00 hoje é preciso ser um sniper.
    Se errar 5 cm o alvo é prejuizo na certa. Simples assim.
    Só se meta nessa empreitada se realmente tiver as armas e o treinamento de um sniper,

  14. Cilso Lindolfo da Silva

    12/06/2015 at 12:00

    Acredito na Pecuária, como mola propulsora do agronegócio,a conta que todos fazemos e de reposição, ai no deparamos com os dados de 15 anos atrás, quando fazíamos a troca de um boi gordo para três bezerros e isto foi régua de balizamento por muito tempo,o que aconteceu e esta cada vez mais frequente no mercado e troca de um boi gordo para =1,8 bezerros e isto ja faz muito tempo, agora saber se vai fechar a conta vai depender da eficiência do invernista, o produtor de bezerros não todos mas os eficiente estão fazendo desmama de bezerros com 250/280 quilos e este produto precisa valer mais, o mais importante e a lei do mercado oferta e procura, mas com entrada da agricultura a vaca acaba ficando onde não e possível plantar, e aproveitando a Integração quando o produtor e eficiente, PRECISAMOS CADA VEZ MAIS PRODUZIR BEZERROS DE R$-2.000,00 para fazermos mais reais por hectare.

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