A pecuária brasileira vai ficar igual a dos EUA?

Por em 29 de outubro de 2014

Bom dia, tudo bem?

Conversando ontem no grupo BeefRadar no Whatsapp, estávamos falando sobre os preços do bezerro, que subiram muito no Brasil e mais ainda nos EUA.

Daí, o Rogério Goulart, da Carta Pecuária, fez uma pergunta muito interessante. Disse: comparar a pecuária dos EUA com a brasileira é implicitamente dizer que o Brasil caminha para um modelo parecido com o dos EUA. É isso que vocês acham que vai acontecer?

Eu fiquei pensando que essa é uma excelente pergunta. Que nos ajuda numa reflexão sobre quais mudanças vamos ver na nossa pecuária daqui em diante.

Gostaria de fazer esse exercício com você, colocando meus pontos e no final perguntando sua visão.

Se a pergunta é relacionada a confinamento, minha percepção é que não. O Brasil não vai ficar igual aos EUA. Aqui temos abundância de pasto, de chuva, de variedades de capim altamente produtivas. E agora temos integração lavoura-pecuária.

O confinamento ainda deve crescer bastante no Brasil, mas dificilmente teremos um sistema que sai da desmama direto para o confinamento.

Nos EUA, o que levou ao aumento do confinamento foi a escassez de pastos e a abundância de milho e outros grãos. O modelo de produção brasileiro mais eficiente vai cada dia mais unir o melhor dos dois mundos – o melhor do pasto e o melhor do confinamento.

Mas existem outros pontos que valem a pena serem comentados.

A agricultura brasileira está crescendo. E com isso, obviamente, a produção de grãos. E de sub-produtos da agricultura, como casquinha de soja, caroço de algodão (espero que ninguém brigue comigo por citar esse ingrediente polêmico…) e muitos outros sub-produtos.

No MT, teremos produção de etanol de milho, e com isso teremos DDGs, ou seja, uma fonte de proteína excelente para bovinos, com custo baixo.

Eu acredito que o uso de grãos (e de sub-produtos) vai aumentar na pecuária brasileira. Técnicas de suplementação como as ensinadas por Flavio Resende e Gustavo Rezende, da APTA Colina, vão se difundir mais e mais pelo Brasil. Nesse momento, estamos terminando um curso online com eles, com mais de 11.000 participantes, com mais de 100 empresas parceiras. Ou seja, muito mais gente está se capacitando com o que há de melhor em técnica de produção eficiente a pasto com suplementação.

A eficiência vai aumentar. O desperdício vai diminuir. Toda vez que vou num confinamento nos EUA, fico com a impressão que eles trabalham mais e melhores do que nós, e ganham menos dinheiro por boi do que aqui no Brasil, na média. Um dos aprendizados que vejo nos confinamentos americanos é a precisão, a eficiência e a gestão primorosa. É claro que existem excelentes confinamentos no Brasil, mas nos EUA, na média, a gestão é superior.

Outro ponto similar aos EUA. O rebanho brasileiro está se estabilizando ou reduzindo de tamanho. A área de pecuária idem, pois é muito difícil abrir novas áreas, e a agricultura pouco a pouco toma áreas que eram apenas de pecuária. Vamos reduzir área, vamos reduzir o rebanho, mas vamos aumentar a produção. E esse aumento virá do aumento de produção e também do aumento do peso de carcaça.

O peso de carcaça também é influenciado pelo preço do bezerro (reposição) e preço da alimentação (grãos para confinamento ou suplementação). O cenário atual no Brasil é de bezerro caro e milho proporcionalmente barato. Com isso, teremos um aumento do peso de carcaça médio. Mais uma semelhança com os EUA…

Bezerro cada vez mais caro. Eu me lembro de uma frase que ouvi no congresso mundial da carne na África do Sul em 2008: produzir um bezerro é caro, difícil e demorado… Se é complicado assim, a tendência é escassez e preço alto.

Analisando os três fatores / premissas abaixo:

1- Redução da abertura de novas áreas, onde a cria é a primeira atividade
2- Melhoria da capacidade de gestão dos pecuaristas
3- Cria tem rentabilidade similar a recria/engorda quando o ágio da @ do bezerro é de 40% em relação ao boi gordo (dados Exagro)

Minha conclusão é que a tendência de médio-longo prazo é que o ágio do preço do bezerro deva variar em torno de 40%. Isso mesmo, variar, para baixo e para cima… Porque eu acredito nisso? Toda vez que um criador fica melhor na sua gestão e o ágio está abaixo de 40%, ele terá um estímulo econômico para migrar para o ciclo completo ou para recria/engorda.

A tendência é o mercado se equilibrar mais perto dos 40%, e você olhar nos últimos 10 anos, em apenas 2-3 meses (de um total de 120 meses), o ágio ficou próximo dos 40%… Tivemos momentos até de deságio…

É só perguntar qual é a sugestão mais comum da maioria das empresas de consultoria em gestão pecuária, para criadores…

Isso é ruim?

Não. É apenas uma tendência.

Minha sugestão para quem é invernista e não quer ser criador: estude como tornar seu negócio rentável mesmo comprando um bezerro com 40% de ágio em cima do preço do boi gordo. Será uma melhor recria? Confinamento mais eficiente? Peso de abate mais elevado? Uso estratégico de suplementação desde a desmama até abate (boi 7-7-7)?

Outro ponto que chama a atenção nos EUA é a pequena quantidade de funcionários nas fazendas. Lá a mão de obra é mais escassa e mais cara do que no Brasil. Para se ter uma ideia, a maioria dos vaqueiros é de origem hispânica (México principalmente). Imagine você ir visitar uma fazenda aqui no Brasil onde não tem vaqueiros brasileiros? Essa é a realidade nos EUA.

Ou então, quem trabalha é o próprio dono da fazenda. Para contornar isso, investem em maquinário, em automação, em todo tipo de tecnologia que aumente a eficiência da equipe de trabalho. Eu acredito que isso vai ser uma tendência forte daqui para frente por aqui também. Não conheço ninguém aqui no Brasil que não está preocupado com isso.

Um ótimo exemplo dessa tendência aqui no Brasil é o uso de IATF, que uma das grandes vantagens em relação a IA tradicional é a facilidade muito maior de manejo.

Em resumo, minha visão é que o Brasil vai aproveitar sempre suas vantagens naturais e suas condições de mercado, mas que vamos caminhar para uma pecuária mais eficiente e produtiva, e em vários pontos mais parecida com a pecuária dos EUA.

Qual sua visão? Você concorda comigo? Deixe seu comentário, aqui nesse artigo. Fico no aguardo da sua resposta e da sua participação.

Muito obrigado. Um grande abraço, Miguel

Miguel Cavalcanti

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