Pecuarista, entenda o frigorífico. Frigorífico, ajude-nos a entendê-lo melhor.

Por em 21 de março de 2014

Primeiramente explico que minha opinião neste texto é sobre as classes de forma geral, considerei a situação atual média brasileira de pecuaristas, indústria, associações e varejo. Sim, há variação, conheço e reconheço ações existentes que não se encaixarão no contexto escrito aqui.

Pecuarista, entenda o frigorífico. 

Esta indústria é peça chave tanto da cadeia produtiva em que estamos inseridos quanto de nossas vidas. Digo em “nossas” sob o chapéu de produtor (família pecuarista), de consumidor (apreciador de carne bovina) e vendedor varejista de carne.

Sim, poderão dizer que “todos os elos da cadeia produtiva são peças chave”, concordo. Mas se todas são peças chave, por que há tanto conflito na relação entre os elos?

Por um lado é simples, temos:

  • Indústria de insumos/tecnologia/prestação de serviços
  • Produção
  • Frigoríficos
  • Atacado/distribuidores
  • Varejo

E cada um destes elos quer comprar/produzir barato e vender caro, certo? Certo. Mas isso ocorre em qualquer cadeia produtiva, não? Do café, milho, cana-de-açúcar, ou na indústria automobilística por exemplo. Cada um faz a sua parte: deve produzir eficientemente e vender seu produto ao próximo elo pelo preço de mercado (commodity) ou por algum preço negociado anteriormente e contratado entre produtor e indústria conforme características do produto (ou serviço) desejado pelo comprador final.

Pois aí é que está: um produtor de Uno Fiat receberá o valor do carro balizado conforme o mercado. E se quiser vendê-lo por um preço maior depois de produzi-lo e não ter comprador com preço contratado antecipadamente? Não irá conseguir, concordam?

Ok, alguns leitores podem questionar “mas e se o gado não for um Uno Fiat e sim uma Ferrari? O produtor não merece receber mais?”. A melhor resposta é: depende. Produzir e oferecer uma Ferrari em mercados onde não há consumidores potenciais a venda não irá acontecer no preço da Ferrari, mas sim no preço do Uno. Ou seja, custo de produção maior que o de venda, prejuízo. Por outro lado, produzir um Uno para ser vendido em um mercado de Ferrari é arriscado não conseguir vendê-lo por preço algum.

Pois então, tudo depende. Um produtor de Ferrari fabrica-a após tê-la vendida/encomendada antes de produzi-la. E produtores de Uno fabricam-no em grande volume, pois sabem que o mercado consumidor de commodity os comprará.

E existe carne bovina sendo produzida e vendida como uma Ferrari no Brasil? Sim. Mas qual o tamanho deste mercado? Insignificante perto dos 40 milhões de animais abatidos por ano. Mas aí é que está, são projetos pequenos diante da realidade brasileira que se organizaram para vender um produto especial, e não commodity. Já têm seu mercado aberto, como um grupo pequeno e regional de consumidores que desejam tal produto.

Voltando aos frigoríficos, estes vendem commodity, e vendem muito bem. O que seria de nós pecuaristas sem a indústria preparar nosso produto para ser vendido a dezenas de mercados? Ainda mais, o que produzimos dentro da fazenda, carne? Acho que não. Produzimos animal pesado, que será transformado em carne e outras centenas de produtos e subprodutos.

A indústria frigorífica funciona como um desmanche e ainda com uma fábrica pós-desmanche. Compra sua matéria-prima, o boi gordo (80% de suas despesas totais), processa-o, vende a carne, miúdos, couro, pêlo etc… Além de ainda precisar produzir outros produtos (secundários) com resíduos do desmanche, como farinha de osso, farinha de sangue, gelatina, base de soro fisiológico, ração de cachorro etc…

Isto que para cada produto, subproduto e produto secundário existe um mercado comprador. Quem é o comprador de boi gordo produzido na fazenda? O frigorífico. Com quantos compradores o pecuarista negocia? Com os frigoríficos existentes em sua região (vamos desconsiderar a duvidosa questão da concentração de mercado). E com quantos compradores os frigoríficos negociam? Não sei, centenas talvez.

E o processo de produção antes da venda? Na fazenda compramos/criamos a matéria-prima (animais), além de insumos veterinários, nutricionais, tecnológicos e demais equipamentos e manutenções de cerca, pastagem etc… A mão-de-obra na fazenda também faz parte, em torno de um homem para cada 400 animais (podendo variar de 200 a 600). E quais os resíduos? Temos o lixo familiar e embalagens de insumos. Em fazendas com confinamento temos também o esterco como resíduo, que se tratado vira insumo agrícola.

Já na indústria, o processo demanda em média uma pessoa para cada animal abatido por dia. Isto dentro da sala de abate, além da desossa, embalagem, curral, limpeza, administrativo, vendas… E em relação aos “insumos”, ou produtos necessários durante o processamento da matéria-prima? Bom, se um animal se transforma em centenas de outros produtos, não me arrisco a calcular o número de produtos e equipamentos necessários para processar cada um destes subprodutos e produtos secundários.

E o resíduo industrial? Podemos dividir o aproveitamento animal em dois grandes grupos, comestíveis e não comestíveis. Dentro dos comestíveis temos dezenas de subprodutos a serem processados e vendidos, cada um com sua parcela de resíduo. Dentro dos não comestíveis temos outras dezenas de subprodutos a serem processados e vendidos, cada um também com seus resíduos. Ou seja, na fazenda temos resíduo criado a partir de uma operação: engorda de boi. Na indústria, há resíduos de dezenas de operações.

Diante de tantos subprodutos e mercados compradores de um frigorífico, fica a questão: então porque os pecuaristas não recebem também por subproduto e sim somente por peso? Entendo que cada elo tem sua função, e cada um deve aproveitar as oportunidades que têm em mãos. Por exemplo, se o frigorífico quer o couro sem marcas, deve estimular o pecuarista a marcar os animais em locais não depreciadores. Mas como seria este estímulo, sendo que cada frigorífico tem centenas de fornecedores (pecuaristas)? Talvez descartar os couros inviáveis e aproveitar os melhores seja mais barato do que criar e executar um programa de estímulo e parceria com os pecuaristas.

E em relação à quantidade e qualidade dos fornecedores de uma fazenda? São as empresas de insumos genéticos, nutricionais, farmacêuticos, tecnológicos, fornecedores de recria e prestadores de serviço. Pegando os fornecedores de insumos nutricionais como exemplo, o que os pecuaristas esperam receber em suas fazendas após fechar negócio com o fornecedor? O pedido sem nenhum erro, certo? Além também de esperar o mesmo produto comprado da última vez. Imagine se recebêssemos na fazenda sal mineral de uma mesma empresa, só que a cada entrega o produto viesse com características diferentes?

É o que acontece na indústria com sua matéria-prima. O frigorífico tem centenas de pecuaristas produzindo animais cada um do seu jeito. Ou seja, a despadronização dos animais que chegam nos currais frigoríficos é total.

Assim como na fazenda, se recebêssemos sais minerais despadronizados nossas boiadas nunca teriam as mesmas condições de recria/engorda/terminação resultando em boiadas com produtividade diferentes. No frigorífico é a mesma coisa. Recebendo matéria-prima variável, a indústria tem produtos finais variáveis, criando a necessidade de ampliar seu número de clientes e ainda sem garantir a conformidade de seu produto, pois não sabem o que vão receber em seu curral. Claro, há padrões regionais de boiadas, histórico de recebimento, sazonalidade e outros indicadores que auxiliam a previsão da qualidade do produto a ser vendido, porém a variabilidade será eterna se o contexto não se alterar.

Frigorífico, ajude-nos a entendê-lo melhor.

Agora em relação ao segundo ponto exclamado no título. O que quero dizer aos frigoríficos é exatamente o comentado no final do parágrafo anterior. Até quando ficarão à deriva em relação à sua matéria-prima? Lembro que comento aqui sobre a classe, há sim iniciativas diferentes. Recebendo cada vez maior proporção de machos inteiros e mantendo a relação ganha-perde com os pecuaristas não me parece a melhor opção.

Esclarecendo, lembrem-se de que com fornecimento variável, é preciso encontrar 1) compradores que aceitem a despadronização ou 2) encontrar diversos clientes. 1) Se aceitam variabilidade, os compradores têm poder de negociação para pagar menor valor; 2) e encontrar clientes para cada tipo de produto, sem garantir fornecimento estável também fica impossível de agregar valor à mercadoria vendida.

Voltando aos animais inteiros, estes têm sensibilidade nervosa/hormonal maior do que castrados, deixando-os com maior chance de elevação do batimento cardíaco em situações desconfortáveis. Um exemplo é no embarque, viagem e desembarque. O nível de adrenalina e demais hormônios de “fuga e luta” são liberados, deixando o animal tenso e consumindo sua reserva energética muscular. Desta forma, os músculos ficam sem energia para se transformarem em carne por meio das reações químicas naturais pós-abate, e assim o frigorífico acaba com carne de má qualidade em mãos para vender.

Por isso os frigoríficos podem (e acho que devem) trabalhar para melhorar a qualidade do gado recebido. Será que todos compradores de gado sabem avaliar um animal vivo e prever a qualidade da carcaça? Será que todos entram na sala de abate para conferir o que compraram? Existem políticas de incentivo para fornecedores ou grupos de fornecedores que entregam características desejadas? Como é a avaliação do desempenho do setor de compra? Os compradores conhecem as propriedades e proprietários de sua região? Será que não há fornecedores capazes de melhorar seu rebanho? Quem é o responsável geral pela compra de gado, esta pessoa busca o ganha-ganha para a empresa/pecuarista?

Ainda dentro do frigorífico, o pessoal de vendas sabe avaliar uma carcaça? Sabe o que está entrando em seu estoque? Se sabe, em qual nível de detalhamento das características da carne? Têm previsão de recebimento para garantir uma venda melhor? Como é o relacionamento entre vendas e compra de gado? Há interação? A linguagem utilizada é a mesma?

Como em toda indústria, o rendimento e eficiência de todos setores é o grande objetivo. Mas como conectar os indicadores de todos os setores? Desta forma o andamento de um influenciaria no desempenho final do outro. Seria ótimo, não? E com certeza há gente pensando ou fazendo isso.

Meu objetivo com este texto é lutar por um relacionamento melhor entre elos da cadeia produtiva e aumentar o número de pecuaristas que entendem ou querem entender a visão operacional da indústria frigorífica. Os frigoríficos entendem a atividade de produção pecuária e estão trabalhando para melhorar seu fornecimento. Entendem até muito mais coisas do que imaginamos, têm controle diário ou até de hora em hora de suas compras e vendas, por exemplo. O setor de análise de mercado dentro dos frigoríficos é altamente capacitado, gestão de risco, mercado internacional, câmbio, clima, política interna e externa, os frigoríficos estão altamente profissionais.

E como é a situação média dos pecuaristas brasileiros em relação à gestão, informação e gerenciamento de risco? Precisamos (pecuaristas) entender e reconhecer onde estamos e onde queremos chegar. Melhorar esta relação ou deixar como está? Lutar pelo ganha-ganha ou continuar na pura competição ganha-perde? Há exemplos de produtos do agronegócio com relação ganha-ganha entre os elos, e com certeza não chegaram onde estão de uma hora para outra. Se quisermos mudanças devemos começar a praticá-las.

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