“Pelo Fino”, uma necessidade

Por em 10 de setembro de 2014

O crescimento do cruzamento industrial no Brasil é inegável e o predomínio da genética Angus neste segmento também, seja através de touros Angus ou Brangus. A participação da genética Hereford vem crescendo também como alternativa de cruzamento e os conceitos e preocupações deste texto servem da mesma forma para esta raça.

Para que o uso de genética de taurinos em larga escala tenha longevidade precisamos nos preocupar e trabalhar mais com características relacionadas à “adaptação”, tolerância ao calor, e consequente esperada maior resistência ao carrapato.

A busca de animais com maior “adaptação” e maior tolerância ao calor é uma necessidade nas raças taurinas para produção em rebanhos puros, e especialmente, para cruzamentos, pois estes ocorrem principalmente em áreas mais quentes no Brasil.

O stress calórico tem impacto negativo na produtividade dos rebanhos e leva aos seguintes prejuízos em produção animal:

Menor TAXA DE CONECPÇÃO Menor PRODUÇÃO DE LEITE Menor CONSUMO ALIMENTAR
Menor GANHO DE PESO Maior MORTALIDADE Menor SAÚDE GERAL

 

O tipo de pelo (ou pelame) tem relação direta com o stress calórico, pois animais com mais pelo tem a evaporação prejudicada, e este é um dos principais mecanismos de troca de calor do bovino.

A preocupação em relação ao tipo de pelo é um tema antigo dos criadores e muitos relatos de campo são conhecidos, porém nos últimos anos foram intensificados os trabalhos de pesquisa, especialmente nos EUA e com suporte da American Angus Association. Além do tipo de pelo do animal é importante a facilidade que o animal possui para perder o pelo na mudança de estações, o que é chamado de “hair shedding” ou “pelechamento” no sul do Brasil.

Um grupo de pesquisadores das universidades dos estados da Carolina do Norte e Mississippi estudaram este tema em mais de 500 fêmeas em três rebanhos por três anos consecutivos (2007 a 2009), realizando 5 avaliações a cada 30 dias. Outro trabalho foi conduzido entre 2008 a 2010, avaliando aproximadamente 7 mil animais em 18 rebanhos, incluindo fazendas no Texas, Missouri, Kentucky, Tennesse, Alabama, Mississippi, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Virginia .

A pesquisa americana mostrou que a característica “hair shedding” é facilmente mensurável, de alta repetibilidade, e de herdabilidade média (aprox. 0,35), sendo assim efetiva a sua seleção genética.

Os últimos trabalhos de pesquisa comprovaram a existência de correlação entre o tipo de pelo e o peso ao desmame, onde vacas com maior facilidade para perder o pelo desmamam bezerros mais pesados.

O tipo de pelo tem especial impacto nas regiões subtropicais e assim a atenção este assunto tem muito importância em nosso país, pois as situações de stress calórico são frequentes e ainda de maior magnitude em regiões que combinam alta temperatura e alta umidade.

No Brasil, os animais são avaliados para pelame em escores de 1 a 3, onde 1 corresponde a pelo fino e curto e 3 ao pelame longo e denso (lanoso). Nos EUA as avalições usam escores de 1 a 5 conforme a figura.

Escores de pelo (American Angus Association)

Fonte: American Angus Association

Tanto é verdade que o tema “pelo fino” é de interesse dos pecuaristas que as raças africanas Senepol e Bonsmara têm sido usadas em programas de cruzamento, como opção para fêmeas F1 (Angus/Nelore) ou até como primeira opção para o cruzamento direto com o Nelore. A virtude destas raças é a pelagem curta e fina, porém são grupos genéticos oriundos de populações relativamente pequenas se comparadas ao Angus. O propósito deste comentário não é comparar as raças, mas sim evidenciar que os produtores buscam alternativas de animais com maior adaptação.

VENDA DE TOUROS “TOSADOS”

Ainda é comum a venda de touros tosados nos leilões, especialmente no RS. Esta conduta tem o propósito de dar melhor aspecto e apresentação aos animais, porém oculta a informação do tipo de pelame de cada indivíduo. Desta forma, tornamos praticamente impossível a escolha de animais mais adaptados para os produtores que buscam esta característica.

Deve ser comentada a exceção do trabalho da GAP Genética, que além de não tosar os touros que comercializa em seus leilões, oferece orientações para seus clientes referente a “potencial adaptação” dos touros. Os técnicos da fazenda classificam os touros previamente ao leilão anual e disponibilizam no catálogo escores de adaptação para todos os touros ofertados, neste item são considerados além do tipo de pelo, o tamanho do prepúcio e o biótipo no caso de touros sintéticos (Brangus e Braford), pois nestas raças existem indivíduos com mais ou menos características fenotípicas de zebuíno.

Confira na figura uma página do catálogo e na coluna “ADAPT” a recomendação da fazenda de animais com maior ou menor potencial de adaptação a regiões mais quentes.

Escore "adaptação" - GAP Genética

A prática de campo e os trabalhos de pesquisa nos EUA confirmam o que a maioria dos selecionadores já sabia: animais que trocam de pelo com mais facilidade são mais saudáveis e produtivos. Desta forma, a atenção para esta característica não é somente relevante para quem busca o mercado do cruzamento, mas sim para todo criador.

As pistas de exposições de animais de elite de certa forma nos induzem a usar genética com mais pelo, pois nos EUA e na Argentina, nossos dois principais fornecedores de genética para este segmento, existe uma preferência por animais com mais pelo, pois estes têm vantagem em seu preparo, “penteado” e apresentação.

A contribuição da pesquisa americana é muito válida e nos dá confiança que existe sustentação técnica para selecionar e multiplicar animais com maior facilidade de troca de pelo, porém não podemos esperar que a solução para esta questão venha do exterior, pois o desafio de usar genética de taurinos no sub-trópico é um trabalho que tem de ser desenvolvido por nós. Se o amigo é selecionador ou usuário de genética de Angus/Hereford coloque este assunto na pauta: PELO FINO!

Fonte: Assessoria Agropecuária FFVelloso & Dimas Rocha (www.assessoriaagropecuaria.com.br)

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