O boi e o navio

Por em 13 de agosto de 2013

por Fernando Furtado Velloso 

Cumprimentos. Estreio neste mês como colunista no Do Pasto ao Prato e por sugestão da editoria da AG vou tratar de um tema pouco abordado na imprensa, a Exportação de Gado Vivo (ou do boi em pé como se popularizou a expressão). Fico à vontade de escrever sobre o tema porque tive a oportunidade de recentemente trabalhar neste ramo e aprender muito com as pessoas que desenvolveram este negócio no Brasil.

Exportação de boi em pé

O setor de exportação de gado vivo é antigo e tradicional em muitos países (Europa, Austrália, México, etc) e mais recentemente passou a ter importância no Brasil e também Uruguai. É um negócio novo em nosso país e nem completou ainda os seus 10 anos. Se este mercado existe para o nosso boi é graças ao esforço das empresas exportadoras que construíram este negócio aprendendo fazendo.

Exportação de boi em pé (Pará)

 

Faz sentido exportar um boi vivo? Aparentemente não, pois se podem transportar muito mais toneladas de carne congelada em um navio do que animais vivos. Os riscos sanitários são menores, os custos são menores e por aí vai. Porém, do outro lado do mar (literalmente) existe um alguém que quer comprar um bovino vivo. Mas, por quê? Os motivos são os mais diversos e os principais são: de caráter religioso, por motivos culturais, por hábitos de consumo (preferência por carne fresca, carne magra, tipos distintos de corte e preparo da carne, etc), por suporte a indústria local, por programas de governo ou até para a formação ou reconstrução de rebanhos (como é o caso da Rússia e China).

Trocam de países anualmente aproximados 5 milhões de bovinos e assim podemos perceber que não é um negócio tão pequeno e sem importância. Este comércio de animais é superior a 2,5 vezes o abate do Uruguai ao do Rio Grande do Sul. O Brasil é responsável por aproximadamente 10% deste mercado, exportando nos últimos 5 anos a média de 500 mil bovinos. O Pará e o Rio Grande do Sul são os dois estados que embarcam animais para exportação desde 2004.

O histórico do Pará traz boas informações de quanto à atividade foi saudável para a pecuária de lá. Este estado que tem representado de 90 a 95% de toda a exportação de boi vivo no país, sofreu uma revolução positiva em pecuária como início dos embarques de gado. Nestes últimos anos o rebanho Paraense (aprox. 18 milhões de bovinos) manteve-se estável ou em crescimento, o preço do boi sofreu valorização e diminui a grande distância histórica da @SP. O pecuarista passou a ter confiança na atividade, a tecnificou mais, investiu e aumentou os níveis de produtividade.

Muitos são os críticos a esta modalidade de exportação, pois alegam que assim exportamos matéria prima, emprego e desenvolvimento (parece até discurso de político). Porém, alguns esclarecimentos são válidos e é necessário compreender se os argumentos são técnicos ou protetores para algum setor. A Austrália tem a posição de maior exportador naval de gado do mundo e ao mesmo tempo está entre os maiores exportadores de carne do mundo (e carne de alto valor). Observando a evolução australiana de exportação de gado e carne comprova-se que uma atividade não prejudicou a outra (veja gráfico). Logo, dizer que uma atividade canibaliza a outra é super simplificação. Nosso vizinho Uruguai exportou bastante gado nos últimos anos (chegando a 300 mil terneiros em 2011) e mesmo assim ampliou as suas exportações de carne, superou a Argentina e em 2013 terá a sua maior safra de terneiros da história recente alcançando os 3 milhões.

Austrália: exportação de boi e carne

 

Artigo - O boi e o navio

(Artigo publicado na Revista AG, Edição Agosto 2013)

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